Tormento do ideal

Conheci a Beleza que não morre 
E fiquei triste.
Como quem da serra 
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra 
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre, 
Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre; 
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra 
Perder a cor, bem como a nuvem que erra 
Ao pôr do sol e sobre o mar discorre. 
Pedindo à forma, em vão, a ideia pura, 
Tropeço, em sombras, na matéria dura, 
E encontro a imperfeição de quanto existe. 
Recebi o batismo dos poetas, 
E assentado entre as formas incompletas, 
Para sempre fiquei pálido e triste.

Antero de Quental

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